ARTE

Casulo.

O tempo – aqui – parou.
Pouco se ouve do que lá de fora se anuncia; Pouco se percebe nas mudanças de cor de um dia. Eterno eu, enquanto só, pois só assim consigo tecer, tricotar as linhas e conceber os coletes que o amanhã me irá vestir.
Roupa espalhada, tal como as ideias que – disparadas – fazem ricochete nas paredes rugosas e no baixo tecto; Não há uma única vez que este cenário não me faça sorrir.
O vento – aqui – ouve-se todo, sem lasca de pedaço que lhe falte. E, quando chove, é um duche de emoções, arrepios de prazer; No imediato, sou um bicho de conta, que se enrola para se proteger, ou então para me surpreender.
Um quadro kitsch é o altar, assim como há imensa lonjura neste quase perfeito estar. É a preguiça que o comanda, do alto do seu fato-general, armada em senhora governanta; Como se eu, alguma vez, tivesse a veleidade de aqui mandar.
Linha após linha, a tecelagem ganha vida, neste casulo sorteado; De facto, poderia estar em outro qualquer lado. Até agora tem sido a minha ilustre fábrica, gaiola que ferve no Verão e, no Inverno, se torna aliada de uma mancha polar árctica.
O que não se vê é enorme, pois também disforme. Pareço uma criança a rebolar pelo chão, assim que me apanho de chinelo na mão; Um cachorro a pedir seios, de quando em vez, para acalmar as meias loucuras. Lá fora, um terraço comprido, de onde se avista tudo o que permitido é; E o que é permitido? Tudo o que se vê, o que está para lá do visível e, ainda, aquelas coisas que só se avistam com olhos semeados de torturas.
Não há medo, aqui onde me escondo; Muito menos existe o preconceito de arrumar a tralha para receber um conde.
Aqui me escondo, de cada vez que me decido a subir escadas. E, nessas vezes, falo ao silêncio – e, ele, responde-me de viva voz, murmurando dilemas, afagando problemas e dizendo-me para lhe pertencer. Ouço-o, na perfeição, só não sei bem de onde.
Agora – aqui – três clarabóias avisam-me que o dia tem luz. Não tarda muito a que me digam o contrário, algo que ainda mais me seduz.
Ouço a insistência de um arame no roçar daquelas telhas; Como se me ouvisse a mim, sem vozes na serena barragem dos sentidos. É um mero casulo, desarrumado quando lhe tiro meio retrato; Mas é – também – o amparo que visto, e dele abuso, quando necessito de selar um contrato.
O tempo – aqui – parou. E eu agradeço-me, por não ser apenas mais uma das personagens da peça ‘Insípida Vida’, em cena num qualquer teatro.
Concebido o casulo, resta-me repousar em crisálida; Certo – é uma tontura, uma opção pálida.
Entre saídas e entradas, subidas e descidas, é apenas aqui que me torno o que resta – mero desistente da vida, a tal que foi escolhida como válida.

Anúncios